À Procura do Vento num Jardim D'Agosto
No exacto minuto antes de partir, recordo o fragmento que se diluiu no peso acinzentado dos dias e da solidão. Talvez não seja tarde ainda para começar a regressar. De corpo aberto às sementes e ao arado, aliso a salgada pele macerada por uma vida anterior a esta que a feriu. No entanto, sinto que ainda consigo olhar o tempo através da seiva das frases decrépitas. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E sinto-me latejar, além, onde me perderei para sempre, naquele jardim d’Agosto, à espera que o vento irrompa do corpo e se mova por detrás das palavras.
Neste momento, virgem até ao hímen da deambulação da escrita, ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto. Erguem-se os cardos que brotam dos alicerces da alma, pequenas nódoas de memórias, enrodilhado de veias entupidas pelas chuvas…não, não é este solitário deserto que me surpreende, sempre fulgurante, mas sim o grito que há-de crescer do fundo do coração do poema.
Os espelhos anunciam a cinza que sepultará o corpo, algures, num esquecimento e numa dor obscura de mim própria mas, também, ainda me devolvem a candura do que sou. Acredito que ainda é possível subjugar o destino à minha vontade. Ainda é possível mergulhar no reflexo do espelho e roubar-lhe os vestígios felizes enclausurados nas rugas do rosto. Ainda é possível apagar as dolorosas manchas no ego da memória e recuperar o rosto da alegria que me pertenceu. É esse o meu rosto, mesmo que esteja morto.
Regresso. Regresso às palavras que escorrem dos dedos enrolados nos dias, ao riso matinal do sol que entra, centímetro a centímetro pelo friso da janela derramando-se morno sobre a colcha avermelhada. Regresso ao aroma do corpo saciado, às nocturnas conversas das luzes, aos jogos de sedução das estrelas, ao murmúrio das vozes dos becos da cidade, à ofegante brisa da madrugada. Porque os poemas mortos não se substituem e estão cheios de pústulas no âmago das rimas.
Talvez não seja tarde ainda para começar a regressar às entranhas do meu ser.


20 Comments:
Nunca é tarde para regressar. O vento quente, tacteia o corpo, procurando as palavras por que anseia... não precisas de apagar nada, porque então apagas uma parte de ti. Apenas precisas de encontrar o sorriso que outrora te pertenceu e aí, nesse momento exacto terás reencontrado o teu personagem. Abandonas as sombras e regressas ao caminho trilhado pelo sol das manhãs perdidas, fechas o labirinto que se prolonga pelo deserto e sentes a brisa quente do "Jardim D' Agosto", movendo-se pelo teu corpo, ao sabor das tuas vontades...
Um beijo
belo!!!
Que bom rever-te ainda por cima com uma música que adoro, de um grupo que adoro :))) Vou tratar te por M. entao :))) beijos
amiga
não tenho palavras
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agradeço o teu link (vazio)
afundei-me num abismosemantico...
beijinhos
Nunca é tarde para nós.
Nunca é tarde para voltarmos a nós mesmos...
Bjito e vou voltar*
Tarde não será seguramente.
Inrrompe... não te adies nunca.
Bem hajas
E ainda bem que regressas... :)
Beijo grande*
Incendiaram-me a infância...biblioteca de sonhos. Não quero regressar ao passado. Não me quero retardar no ontem nem viver esta anologia de mim...
Agora que a noite se foi e a minha estrela também..resta-me "abraçar" o canto das cigarras madrugadoras...
começo, todavia, a pensar que talvés não seja tarde para regressar...
Abraço
Paulo
Não é tarde! Não é!
Então, um bom regresso! Sejas bem vinda.
"Prende-me em ti
agarra-me ao chão
como barcos em terra
como fogo na mão"
P.Abrunhosa
Não é, nem nunca será.
Nunca é tarde para nos redescobrirmos.
Quanto ás feridas, essas lambem-se e segue-se em frente.
Ânimo por favor!!!
Um novo dia se espreguiça a teus pés...
Bem vinda, de volta.
É nessa brisa quente duma noite de Agosto que te procuro, numa escuridão de murmúrios de palavras mudas que não são proferidas, mas sim sentidas.
well...eu nasci a 18 de setembro, virgem, e tu?
Olá M. Vim agradecer as tuas palavras no Sombras. Gostei do teu cantinho. Do texto e da música. Acolhedor. :)
Vou adicionar-te para não te perder o rasto ;)
Beijinhos
No sítio onde estou não tenho maneira de ouvir a música, estou ainda na redação e sabes que aqui não tenho altifalantes(é assim que se diz?)
Na rádio era tudo mais fácil.
Gostei imensamente do texto, esse sim, consegui ler, apesar de me faltar uma haste nos óculos.
Vou-te linkar, assim que mexa nos links.
Teresa
Sabes um título bom para um post?
"O fim do mundo na nossa cama habitual numa noite de chuva". é um filme bastante antigo
still...very accurate
boa noite e bons sonhos...
maravilhoso teu texto, adorei, parabéns - abraços
maravilhoso teu texto, adorei, parabéns - abraços
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