Fotografia de Magdalena WanliNo exacto minuto antes de partir, recordo o fragmento que se diluiu no peso acinzentado dos dias e da solidão. Talvez não seja tarde ainda para começar a regressar. De corpo aberto às sementes e ao arado, aliso a salgada pele macerada por uma vida anterior a esta que a feriu. No entanto, sinto que ainda consigo olhar o tempo através da seiva das frases decrépitas. De resto, os dias acumulam-se uns sobre os outros, iguais, sob o negro esplendor do sol. E sinto-me latejar, além, onde me perderei para sempre, naquele jardim d’Agosto, à espera que o vento irrompa do corpo e se mova por detrás das palavras.
Neste momento, virgem até ao hímen da deambulação da escrita, ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto. Erguem-se os cardos que brotam dos alicerces da alma, pequenas nódoas de memórias, enrodilhado de veias entupidas pelas chuvas…não, não é este solitário deserto que me surpreende, sempre fulgurante, mas sim o grito que há-de crescer do fundo do coração do poema.
Os espelhos anunciam a cinza que sepultará o corpo, algures, num esquecimento e numa dor obscura de mim própria mas, também, ainda me devolvem a candura do que sou. Acredito que ainda é possível subjugar o destino à minha vontade. Ainda é possível mergulhar no reflexo do espelho e roubar-lhe os vestígios felizes enclausurados nas rugas do rosto. Ainda é possível apagar as dolorosas manchas no ego da memória e recuperar o rosto da alegria que me pertenceu. É esse o meu rosto, mesmo que esteja morto.
Regresso. Regresso às palavras que escorrem dos dedos enrolados nos dias, ao riso matinal do sol que entra, centímetro a centímetro pelo friso da janela derramando-se morno sobre a colcha avermelhada. Regresso ao aroma do corpo saciado, às nocturnas conversas das luzes, aos jogos de sedução das estrelas, ao murmúrio das vozes dos becos da cidade, à ofegante brisa da madrugada. Porque os poemas mortos não se substituem e estão cheios de pústulas no âmago das rimas.
Talvez não seja tarde ainda para começar a regressar às entranhas do meu ser.